Hoje minha avó, Ana Furlanetto de Souza, respirando 93 anos de idade, conheceu o primeiro dia de sua velhice. Acordou sem despertador às 7h30 da manhã e, sem perceber a presença de meu irmão que fora alocado no quarto para sua segurança, escancarou a janela, abriu a porta e começou a “arrumar” suas coisas. Os porta-retratos continuam disputando atenção com uma caneca verde-limão, o frasco de Ciloxan, uma caixa de perfume, um falso antúrio, um castiçal e duas velas gastas sobre uma toalhinha rendada. Ela arrasta sua arcada curva pelo quarto e depois volta a sentar-se em sua cama percebendo uma reação inédita em seu corpo; está tremendo. Tremendo muito.
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Ante esta sensação ela enrijeceu os músculos, atrofiou os membros inferiores e desencadeou uma fadiga que não se agüentou silêncio, vestindo-se de um ofegar alto e suplicante. Uma armação trêmula, agonizante e frágil. Foi vestida e levada para o pronto atendimento. Há bem poucos dias estava tomando um remédio orientado pelo médico a fim de combater a ansiedade. Porém o remédio acabou e, nesse retorno às pressas, foi diagnosticado: “a vovó está com síndrome do pânico”.
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Fiquei perdido entre a minha mesquinha ganância sentimental e meu círculo social mais significativo. Fiquei pensando meus fracassos e insucessos amorosos enquanto, de palpitações excessivas e boca seca, minha avó tomava soro para sedar a vida. Estive calculando minha receita e debitando minhas futilidades ao passo que, no hospital, a guerreira quase secular lutava pra viver mais.
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Ana Furlanetto, filha de italianos da imigração desenfreada no começo do século XX, nasceu em São José do Rio Pardo, casou-se com Pedro Bento de Souza e, dessa união, ganhou um dos sobrenomes mais populares. Fez filhos e história. Das vagas lembranças que sobraram em minha infância lembro meu avô abrindo o portão da garagem de casa enquanto eu ajudava meu pai a construir o guarda-roupa do meu quarto; minha avó sempre estava atrás, com uma malinha pequena. Lembro da melhor polenta que já comi em minha curta vida; divindade servida em uma tigelinha oval de inox. Lembro do forno à lenha em pleno Guarulhos de 1990, chocado com um quintal grande regado a pés de café. Nunca consegui esquecer a geladeira vermelha e os litros alcoólicos embaixo da cama. Era pedaço de vida observado atentamente. Sensações muito fortes que não caberia no hall das frivolidades.
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Meu avô faleceu e, antes que fosse, pediu para que ela ficasse conosco. Ela veio e tive a oportunidade que poucos netos têm; descobri a intolerância, a graça e os limites da idade avançada. Ri depois de ler que Trombofobe era uma pomada em gel e, no canto do meu olho, vê-la passando a pomada no cabelo. Estranhei os dias que ela deitava com o cabelo bem branquinho e acordava com o cabelo levemente escuro. Gargalhei quando ela cantou “pro caboooclo Chiico Tereza moráááá”, numa mistura inusitada de Chico Mineiro com a Cabocla Tereza. Ou ainda de quando ela guardava os fios de cabelo, caídos de canseira, numa redinha pra avolumar o penteado.
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Ela continua viva, mas já perdeu a privacidade do banho sozinha, a leveza dos movimentos, os cabelos escuros, a voz vibrante... e a confiança. Tem tantos netos que mal consegue mensurar. Ana Furlanetto de Souza, vívida em 5 filhos, muitos netos e alguns tantos bisnetos, está cansando.
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música: Outubro (Milton Nascimento)
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Alex Pinheiro