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domingo, 8 de novembro de 2009

excerto I

Observou parado, e por um tempo imensurável, o cachorro magro e manquitola que atravessou sem olhar e foi marcando de sangue o caminho. O semáforo, que já executara seu ciclo duas vezes desde que ele escolhera parar seu tempo, assistia, com desdém, o pobre cruzar a rua. Era um rastro vermelho claro que ora era largo, ora era fino quase nada, e essa irregularidade revelava a sinfonia escrita nas pupilas de Edgar. Uma composição suave e perturbadora. Uma sucessão de reveses desde o grito, resposta rápida da amídala. Uma euforia que cobrara todos os centavos. Então ali, olhando dezenas de cores barulhentas passarem, tudo foi acinzentando como os discos de cores do arco íris quando girados em velocidade; coisa do Newton, e da infância distante. Depois ficou branco. Num branco que era possível descansar as pálpebras e sorrir só com os lábios Edgar caiu frouxo.
música: Moonlight Sonata [Resident Evil (Beethoven)]
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Alex Pinheiro


sábado, 24 de outubro de 2009

Franz Kafka

Li sim
, mas li baixo...
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é que o ruído das páginas
, ácidas e arenosas,
me perturbavam.
música: fora de si (Arnaldo Antunes)
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Alex Pinheiro
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Crepúsculo

Hoje minha avó, Ana Furlanetto de Souza, respirando 93 anos de idade, conheceu o primeiro dia de sua velhice. Acordou sem despertador às 7h30 da manhã e, sem perceber a presença de meu irmão que fora alocado no quarto para sua segurança, escancarou a janela, abriu a porta e começou a “arrumar” suas coisas. Os porta-retratos continuam disputando atenção com uma caneca verde-limão, o frasco de Ciloxan, uma caixa de perfume, um falso antúrio, um castiçal e duas velas gastas sobre uma toalhinha rendada. Ela arrasta sua arcada curva pelo quarto e depois volta a sentar-se em sua cama percebendo uma reação inédita em seu corpo; está tremendo. Tremendo muito.
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Ante esta sensação ela enrijeceu os músculos, atrofiou os membros inferiores e desencadeou uma fadiga que não se agüentou silêncio, vestindo-se de um ofegar alto e suplicante. Uma armação trêmula, agonizante e frágil. Foi vestida e levada para o pronto atendimento. Há bem poucos dias estava tomando um remédio orientado pelo médico a fim de combater a ansiedade. Porém o remédio acabou e, nesse retorno às pressas, foi diagnosticado: “a vovó está com síndrome do pânico”.
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Fiquei perdido entre a minha mesquinha ganância sentimental e meu círculo social mais significativo. Fiquei pensando meus fracassos e insucessos amorosos enquanto, de palpitações excessivas e boca seca, minha avó tomava soro para sedar a vida. Estive calculando minha receita e debitando minhas futilidades ao passo que, no hospital, a guerreira quase secular lutava pra viver mais.
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Ana Furlanetto, filha de italianos da imigração desenfreada no começo do século XX, nasceu em São José do Rio Pardo, casou-se com Pedro Bento de Souza e, dessa união, ganhou um dos sobrenomes mais populares. Fez filhos e história. Das vagas lembranças que sobraram em minha infância lembro meu avô abrindo o portão da garagem de casa enquanto eu ajudava meu pai a construir o guarda-roupa do meu quarto; minha avó sempre estava atrás, com uma malinha pequena. Lembro da melhor polenta que já comi em minha curta vida; divindade servida em uma tigelinha oval de inox. Lembro do forno à lenha em pleno Guarulhos de 1990, chocado com um quintal grande regado a pés de café. Nunca consegui esquecer a geladeira vermelha e os litros alcoólicos embaixo da cama. Era pedaço de vida observado atentamente. Sensações muito fortes que não caberia no hall das frivolidades.
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Meu avô faleceu e, antes que fosse, pediu para que ela ficasse conosco. Ela veio e tive a oportunidade que poucos netos têm; descobri a intolerância, a graça e os limites da idade avançada. Ri depois de ler que Trombofobe era uma pomada em gel e, no canto do meu olho, vê-la passando a pomada no cabelo. Estranhei os dias que ela deitava com o cabelo bem branquinho e acordava com o cabelo levemente escuro. Gargalhei quando ela cantou “pro caboooclo Chiico Tereza moráááá”, numa mistura inusitada de Chico Mineiro com a Cabocla Tereza. Ou ainda de quando ela guardava os fios de cabelo, caídos de canseira, numa redinha pra avolumar o penteado.
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Ela continua viva, mas já perdeu a privacidade do banho sozinha, a leveza dos movimentos, os cabelos escuros, a voz vibrante... e a confiança. Tem tantos netos que mal consegue mensurar. Ana Furlanetto de Souza, vívida em 5 filhos, muitos netos e alguns tantos bisnetos, está cansando.
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música: Outubro (Milton Nascimento)
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Alex Pinheiro

a imagem-título é uma invenção de Kumi Monster